Posted by Rodrigo Dias on
June 22, 2010
40 anos de Tarumã – A minha primeira vez
O Autódromo Internacional de Tarumã completa, no dia 8 de novembro deste mês, 40 anos de vida. Atualmente, é um espaço para a prática de automobilismo que, a cada ano que passa, não consegue se renovar. Os motivos são os mais variados, mas, entre eles, está a falta de dinheiro para investir naquilo que é de mais importante em um complexo esportivo: a estrutura – que permanece praticamente a mesma desde a primeira vez que o visitei, em 1997.
Mas não é sobre isso que pretendo escrever aqui. A partir de hoje, até o dia 8 de novembro – mas não com uma periodicidade precisa -, escreverei alguns textos sobre esses 40 anos do autódromo. Não vivenciei muitos deles, mas com certeza, será muito bom relembrar – e poder fazer você também relembrar – dos pontos mais importantes dessa história cheia de emoções, tragédias, e, por que não, alegrias?
Não lembro ao certo quando foi a primeira vez. Ao contrário da música Nenhum de Nós, eu não lembro nem do dia, nem do mês, mas apenas do ano. Era 1997. Após me emocionar vendo diversas corridas da Fórmula 1 pela televisão – até então, a minha vida automobilística se restringia apenas a essa categoria top e a Fórmula Indy -, uma propaganda me chamou a atenção. O autódromo de Tarumã, que eu insistia de chamar de “Itarumã”, receberia uma das provas daquele ano da Stock Car.
Nunca tinha ouvido falar do certame, mas olhei para o meu pai e falei “quero ir”. Fanático que sou por esse esporte, tudo por culpa do meu avô, não arredei o pé e disse para o véio Ero onde ele poderia comprar os ingressos e quanto custavam.
Domingo pela manhã acordei eufórico. Finalmente eu iria para “Itarumã”. Entramos no Corsa, só ele e eu, e nos dirigimos da Zona Sul de Porto Alegre até a cidade de Viamão. Foram longos 30 minutos de viagem.
Chegamos ao Autódromo por volta das 10 horas. A categoria nacional de Corsas já estava realizando a sua primeira bateria. Como nem eu, nem meu pai, conhecíamos o autódromo, fomos para a famosa curva do Tala Larga. Muita, mas muita gente. Muita, mas muitas churrasqueiras. Muito, mas muito churrasco. Muita, mas muita fome.
Vimos o encerramento dos Corsas e, depois, a primeira bateria da Fórmula Chevrolet. Foi divertido, até, mas achamos muito sem sal aquela curva. Como todo gurizão, eu queria ver porradas. E porrada era o que menos tinha. Resolvemos dar uma volta pelo autódromo.
Caminhando por aí, chegamos próximo aos boxes. Só espaço para gente chique e jornalistas. Avistamos, um pouco ao nosso lado, umas escadas. Fomos até lá e subimos. Estávamos em cima de alguns boxes, no espaço reservado para os pobrezinhos, como meu pai e eu. Achei legal tudo e fiquei triste por saber que não poderia ficar ali próximo dos carros: não tínhamos a verba necessária para comprar as credenciais VIP.
Nos contentamos em ir até a reta principal. Como o carro estava no estacionamento, fomos a pé mesmo. Subimos o histórico barranco até as arquibancadas de concreto. O povo dê-lhe a mamar uma cachaça, e meu pai e eu só olhando para a pista.
Foi, então, que um ronco alto e ensurdecedor – ao menos para mim, na época – foi ouvido. Os gritos de “urrul” dos bebuns e dos aficionados. Eu estava deslumbrado. Começou o desfile de diversos carros Ômega da Stock Car, que em 1997 era monomarca, e as categorias, divididas em A e B, corriam ao mesmo tempo.
A largada foi dada, com Paulão Gomes e seu carro verde com patrocínio da Varga largou na Pole Position. O Ademir “Perna” Moreira, até hoje locutor das provas de Tarumã, estava lá, fazendo suas gracinhas. Poucas voltas depois, aquele carro verde para em nossa frente. Deu algum problema e o Paulão teve de abandonar. Ingo Hoffmann, com o seu Ômega branco, patrocinado pela Castrol, assumiu a liderança e venceu folgado.
Mas o ponto alto da tarde estava em um carro vermelho e branco, com patrocínio da Krill. O carro largou em último e era o mais lento da turma. A cada passagem dele, gritos de força para o carro, mas não deu muito certo. O coitado ficou em último.
Pausa. Acho que, nesse horário, fomos almoçar. Nem lembro o que comi, se foi um churrasquinho ou se foi um almoço, mesmo. Vimos as outras provas da Copa Corsa e da Fórmula Chevrolet. Mas minha atenção estava voltada para a segunda bateria da Stock Car.
A largada foi dada novamente. Galvão Bueno foi entrevistado pelo Perna, e em nenhum momento alguém gritou “Cala a Boca, Galvão”.
Ingo, o alemão, continuava comandando na frente. Paulão, que teve de largar em último por ter abandonado a primeira prova, começou a chegar. Em pouquíssimas voltas saiu de último para figurar entre os primeiros. Mais algumas voltas, já estava em segundo, dando um suor danado em Ingo Hoffmann.
A batalha foi dura. Algumas porradas, mas nada muito “oh”. Foi divertido, mas eu estava mais é olhando para a dupla Paulão-Ingo e incentivando o carrinho da Krill a se dar bem.
A vitória ficou, novamente, com Ingo, mas o piloto mais festejado foi o carinha da Krill. Chegou em último recebendo uma saraivada de palmas. O Paulão também foi aplaudido, ao som de “esse cara é bom”. Eu não sabia quem era, então não falei nada.
Depois disso, pegamos o carro e voltamos para a nossa casa na extrema Zona Sul de Porto Alegre. Meu pai estava cansado. Eu, com aquele sorriso de uma orelha a outra, como se tivesse perdido minha virgindade.
Posted by Rodrigo Dias on
October 25, 2009
Stock Car (quase) revive pesadelo
Faltavam cerca de 20 minutos para as 15 horas. Na pista, os pilotos da Pick-Up Racing estavam a poucos minutos de encerrar a ante-penúltima etapa da categoria no ano. Até que, após uma relargada, a “família” Stock Car quase reviveu o pesadelo de 2007.
A bandeira verde foi agitada. Julio Campos e Fabrício Lançoni se afastam dos concorrentes. O gaúcho Rafael Iserhard, então em quarto, dá o bote em Thiago Riberi. Acelera com mais rapidez, coloca o carro à direita do adversário e não arreda o pé. Riberi não tinha mais o que fazer, a não ser deixar a posição para o concorrente.
Primeira perna do S do circuito de Curitiba feita para a direita, depois esquerda, para mais uma vez ir para a direita. Aceleração forte para fechar a volta, já que é no anel externo. Na última curva, que antecede a reta dos boxes, Riberi dá um leve toque em Iserhard. “Ele deu uma freada antes do normal e não pude evitar, mas cuidei para ser manobra limpa”, disse o piloto à Rede Vida, transmissora da Pick-Up Racing na tv aberta.
Iserhard balança, mas não roda.
Ambos vão para a reta principal. Riberi sai melhor e coloca o carro à esquerda do gaúcho. Ambos mantém a linha até cruzarem a linha de chegada. Após cruzá-la, a manobra arriscada e irresponsável.
Riberi, como quem estivesse vingativo por ter sofrido o bote na volta anterior, começa a espremer o adversário. Sem saída, Iserhard vai para a grama. Não apenas com duas rodas, mas com as quatro. Vira passageiro.
O adversário volta para o traçado normal, sem ver o que acontecia atrás dele.
Iserhard não tinha mais o que fazer. Frear, girar o volante, nada adiantaria. O seu carro bateu violentamente contra o de outro adversário, que saiu da prova ainda na primeira volta após uma pancada com o também gaúcho Vitor Genz. Destroços da carenagem, feita de fibra de vidro, voam pelos ares. O carro parado vai para a beira da pista, enquanto o de Iserhard atravessa o asfalto e bate na mureta de proteção, forte.
A bandeira vermelha é acionada e o coração de todos dispara. Em 2007, também por um toque de um adversário, Rafael Sperafico bateu de forma violenta contra a mureta de pneus. Seu carro foi lançado para o meio da pista, onde foi acertado no lado do piloto por outro concorrente. Morreu na hora.
Se eu já fiquei com um “puta que pariu, de novo não” em meu sofá, imagina quem estava no circuito paranaense. Graças a Deus, Iserhard não teve nada de muito grave. Dizem que sofreu apenas alguma lesão.
Enquanto uns criticam Riberi, chamando-o de irresponsável e dizendo que deveria ser banido do esporte a motor, outros se perguntam o que aquele carro, abandonado ainda na primeira volta da competição, estava fazendo naquele lugar. Um local de velocidade rápida. Um local em que qualquer um pode perder o controle do carro – ainda mais com os toques em excesso que as categorias de turismo proporcionam. Um local em que mais uma vida poderia ter sido ceifada por uma irresponsabilidade dos dirigentes.
Até agora ninguém respondeu ao blog o que aquele veículo fazia ali. Provavelmente não responderão. Mas a crítica fica aqui – sem, também, criticar Riberi.
O piloto perdeu a quarta colocação. Fechou a prova em décimo. A punição foi muito leve para uma atitude de conseqüências graves. Nelsinho Piquet, por muito pouco, foi praticamente defenestrado da Fórmula 1 pelos próprios colegas de profissão. O que será que acontecerá aqui no Brasil?
Crédito da foto: Fernanda Freixosa/WE
Posted by Rodrigo Dias on
May 5, 2009
O que eu tava fazendo em 1º de maio de 1994?
Porto Alegre (só para ser diferente dos outros) – Lembro pouca coisa desse dia. Estava em um acampamento. Eu tinha 10 anos. Era lobinho do Grupo Escoteiro Charruas, de Porto Alegre. Usava aquele uniforme azul, com meias cinzas e tênis preto. Ah! E um boné azul com listras amarelas, com duas estrelinhas fixadas na parte da frente dele.Não lembro qual o motivo do acampamento. Lembro, apenas, que estava acampando.
A mãe de uma das minhas amiguinhas chegou para mim e comentou “O Ayrton Senna morreu”. Dei de ombros. Naquele momento, apesar de gostar de automobilismo, não liguei o nome Ayrton Senna à Fórmula 1. Estava mais preocupado com o acampamento com as brincadeiras que fizemos. E as outras crianças também pareciam não estar nem aí. Afinal, todo mundo morre todo dia. O “tal” do Ayrton Senna seria só mais um.
Só me liguei qual Ayrton estavam falando quando vi o Fantástico daquele dia. Sandra Annemberg era a apresentadora, se eu não me engano. Falou com a voz embargada que o tricampeão mundial de Fórmula 1, considerado o Deus das pistas, tinha batido feio na Tamburello e que havia deixado o mundo dos vivos. Estava claro que ela tentava engolir o choro – que, se não me engano, não conseguiu.
Em pouco tempo, mostraram flashes de outros telejornais do mundo falando da tragédia. E, também se não me engano, uma imagem do Ayrton Senna, com o uniforme vermelho da McLaren, estava atrás dos apresentadores. Fiquei chateado, mas mesmo assim não fiquei com todo aquele chororô. A primeira coisa que pensei foi “Pelo menos esse aí morreu fazendo o que gostava”.
Quando houve a transmissão ao vivo do enterro do piloto, o cortejo e aquelas coisas todas, é que tomei conhecimento do fato até um tanto histórico que eu havia perdido. Mas, naquele tempo, eu estava mais preocupado com a minha vida escoteira do que com o automobilismo. Afinal, meu avô, quem me deu esse vício, havia falecido 7 anos antes, e tudo ficou sem graça.
Posted by Rodrigo Dias on
April 21, 2009
Produto chinês
Quando eu tinha entre 8 e 12 anos era fã de Cavaleiros do Zodíaco. Passava horas e horas na frente da televisão para assistir o anime japonês na extinta TV Manchete. Era um saco, porque o programa tinha cerca de uma hora, divididos em três blocos em que cada intervalo durava cerca de 10 minutos. Dava tempo de fazer um miojo e comer durante uma das partes do capítulo. Mas eu gostava.
Sim, gostava muito. Tanto é que eu tinha cerca de sete bonecos da saga. Só que, destes, apenas três eram originais, comprados com muito suor pelos meus pais como presente de Natal. A também extinta Superfestas (lugar de brinquedo, lugar de criança) cobrava R$ 45 por exemplar. Os três primeiros foram o Ikki de Fênix, o Milo de Escorpião e o Aiolia de Sagitário. Fiquei feliz pra caramba, mas meus pais não. Foi muito caro aquele Natal para eles.
Assim, descobri os camelôs. Perto do colégio em que eu estudava tinha um. Dentre os vários artigos que poderia comprar, inúmeros eram os bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco. Não resistia. Juntava dinheiro do lanche que recebia e, ao final de um mês, levava um para a casa. Afinal, os brinquedos eram três vezes menor que o original. Mas e daí?
Não entendia o que dizia a caixa. Por quê? O produto vinha em língua chinesa. Sabe como é, né? Terra dos produtos genéricos, mas mais baratos.
Agora, tem gente tentando entender porquê, durante o pódio do Grande Prêmio da China de Fórmula 1, a organização tocou o hino britânico em vez do austríaco – para quem não sabe, a Red Bull, que venceu com o piloto Sebastian Vettel, é austríaca. Ora, estamos falando da China. Se alguns brinquedos que deveriam falar, em vez de inglês ou português, vêm em espanhol, não seria diferente em se tratar de competições automobilísticas, não?
Cada uma que aparece. Tem que explicar tudo para essas pessoas…
Posted by Rodrigo Dias on
March 8, 2009
O jogador de pôquer
Experiente e, pela primeira vez que lembro, ficou quieto o tempo todo. Fez tudo o que deveria durante as férias forçadas após uma temporada de Fórmula 1 com um pódio conquistado, mas com a incerteza de um futuro na categoria: ocupou a mente com outras coisas, como campeonato amador de golf e uma viagem à Disney com a família. Estes foram os quase três meses de folga que Rubens Barrichello teve.
Muitos não acreditavam. Muitos torciam para que a notícia de que o piloto motivo de chacota por quase todos os apaixonados por carros como todo brasileiro, a de que se aposentaria da Fórmula 1, fosse verdade. Poucos acreditavam que dariam a volta por cima. E ele? Ah! Ele mantia-se quieto.
Enquanto todos pensavam que a viagem aos EUA trataria sobre o futuro na terra da crise econômica, se divertia. Teve algumas conversas com dirigentes de equipes tanto de lá quanto daqui, mas sempre disse que seu foco era continuar na categoria máxima do automobilismo. E os jornalistas soltavam “furos de reportagem” o tempo todo. Com toda a certeza, ria quando lia matérias como “Bruno Senna assina contrato de três anos com ex-Honda” ou destaques como a de um certo site mantido por um recém formado jornalista sedento por soltar suas opiniões, que dizia “No alvo. Barrichello não faz mais parte da Fórmula 1″.
Como um exímio jogador de pôquer, não mostrou à ninguém suas cartas. Deixava os outros se acharem os entendidos que, a cada “jogada”, viam suas apostas irem por água abaixo. Após várias rodadas, jogou na mesa seu Royal Straight Flush, mostrando que não blefava quando dizia que seu futuro era mesmo na Fórmula 1.
Rubens Barrichello desbancou diversos adversários, como Bruno Senna e Takuma Sato. Alguns ficaram satisfeitos, muitos não. Porém, o brasileiro terá mais uma chance de mostrar ao mundo porquê deve continuar na categoria. E que tenha muita sorte, porque competência sempre teve.





