Sou fã de Rubens Barrichello
Não sou como muitos aficionados por automobilismo, que se consideram fanáticos pelo Ayrton Senna. Reconheço a história e o legado deixado pelo tricampeão mundial de Fórmula 1, mas não posso me considerar fã de uma pessoa que eu nem acompanhei a carreira. É isso mesmo, não acompanhei a carreira do Senna, mesmo sendo um apaixonado por automobilismo como sou.
Digo isso de boca cheia porque o brasileiro morreu quando eu tinha dez anos. Estava em um acampamento e, com dez anos, tava recém aprendendo o que era viver – ao contrário de muito moleque que, com dez anos, já é praticamente pai. E também porque muitos desses fãs de Senna nunca viram o cara correr. Se baseiam apenas no que dizem os jornais, revistas e documentários. Nasceram no ano ou anos depois da morte do mito esportivo.
Nada contra, apenas tento ser racional. A minha racionalidade diz que não tenho como ser fã de alguém que não acompanhei a carreira.
Agora, acompanhei praticamente toda a carreira do Rubens Barrichello na Fórmula 1. A partir da morte do Senna, caí na onda global e assumi que o outro brasileiro era o nosso novo campeão mundial da categoria. Eu e ele caímos – e alguns milhões de pessoas.
Vi praticamente todas as corridas entre 1995 e 2009. Acordava cedo para ver o quão longe esse carinha conseguia ir. Muitas vezes me decepcionei, mas quem diz que nossos ídolos não cometem falhas? A maior falha dele foi assumir algo que não tinha capacidade. Mas não me deixei vencer por isso.
Me emocionei diversas vezes com esse “brasileirinho contra esse mundão todo”, mesmo não acreditando que o mundo era contra ele – mas sim ele mesmo era o próprio inimigo. Como quando ele conquistou a segunda posição em 1998, quando deveria ser o vencedor no lugar do companheiro de equipe, Johnny Herbert.
Quando o cara foi para a Ferrari, achei que agora ia. Não foi. Mas fez coisas espetaculares. Quem aqui vai negar que a primeira vitória dele, na Alemanha, não foi emocionante? Podem dizer o que quiserem como “Ah, mas o Schumacher saiu da pista…” E daí? Por acaso, todas as vitórias do Ayrton Senna ocorreram só por méritos dele? Nenhum piloto que estava à sua frente saiu da pista por alguma besteira?
Chorei com aquela vitória. Com aquela audácia de sair na 18ª posição e ultrapassar meio mundo. De liderar diversas voltas com a pista meio molhada e meio seca. Uma das maiores vitórias da categoria, que poucas pessoas reconhecem só porque o Barrichello fala demais.
Ou vai dizer que você também não ficou irritado quando, em 2001, ele cedeu a vitória para Schumacher na última curva? Com aquele “hoje não!” do Cléber Machado se transformando em “Hoje sim”, em tom melancólico? Não vaiou o alemão – e a tiracolo o brasileiro – por ter nos tornado um idiota no meio de milhões de espectadores?
Repito. Quem disse que nossos ídolos não fazem besteira?
Sim, me decepcionei diversas vezes com este carinha, mas e daí? Em 2009 ele retomou tudo. Conseguiu, com a Brawn, conquistar algumas vitórias. E olha que era um cara dado como aposentado. Não rolou. Calou a boca de muita gente, mas mesmo assim, essa galerinha aproveitou qualquer falha para dizer “eu falei que esse cara era um bosta.”
É! Um bosta que durou 19 anos na categoria máxima do automobilismo. Um bosta que derrotou o melhor de todos os tempos – no quesito números – algumas vezes. Um bosta que até hoje é respeitado pelos aficionados por esporte do mundo todo, menos aqui no Brasil, em que só prestam aqueles que são vencedores.
Agora esse cara tem tudo para dar certo. Está quase confirmado na Fórmula Indy neste ano. Todos se surpreenderam com as voltas que deu em Sebring e, neste fim de semana, tem algumas voltinhas para dar na KV Racing – equipe do amigo-irmão Tony Kanaan.
Tem como não ser fã desse cara? A mim, não.





